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escherichia coliPor Selma Soares de Oliveira

O mundo enfrenta atualmente vários problemas em relação a nutrição. Vários países, incluindo a África e algumas regiões do Brasil tentam resolver de alguma maneira a questão da fome através do aumento da produção de alimentos. Alguns grupos defendem a utilização de alimentos transgênicos, mais resistentes a pragas agrícolas e, portanto, mais fáceis para o cultivo de produção de alimentos, como uma das soluções para a fome no mundo. Existem ainda vários itens a serem considerados e comissões foram criadas para avaliar o uso de cada transgênico. Na agricultura tradicional, por sua vez, o uso de agroquímicos em altas concentrações tornou-se uma rotina bastante comum.

Porém, como resultado do mundo globalizado em que vivemos atualmente e da difusão de mais informações sobre os riscos à saúde, cresce hoje no mundo a busca por alimentos mais saudáveis, resultando numa procura por produtos orgânicos, buscando aproveitar vitaminas, sais e outros nutrientes através da ingestão de alimentos crus e minimamente processados.

Contudo, a comunidade científica e a sociedade vêm sendo surpreendida por relatos de surtos doenças de origem alimentar em diferentes regiões do mundo, especialmente na Europa, envolvendo vegetais, e muitas vezes têm sido surpreendida por bactérias anteriormente consideradas não patogênicas, que surgem com alto poder agressivo, podendo provocar lesões sérias e até a morte.

No Brasil, recentemente, o açaí foi implicado na transmissão de doença de Chagas, doença transmitida pelo protozoário Trypanosoma cruzi , como já aconteceu anteriormente em relação à cana-de açúcar, levando a uma discussão no meio científico em relação à forma de transmissão desta doença. Em ambos os casos haveria contaminação com fezes do inseto, conhecido como “Barbeiro” que teriam entrado em contato com a planta na sua fase de cultivo ou de armazenamento. Estes eventos, aliados aos recentes surtos de contaminação bacteriana veiculada por alimentos vegetais, evidenciam que é necessário maior atenção na forma da produção e armazenamento de alimetentos vegetais.

Uma cepa de E. coli que contaminou vegetais na Europa em 2011 foi causa de surtos de infecção envolvendo complicações de uma síndrome urêmica hemolítica. Esta bactéria apresentava mutações em relação às estirpes previamente descritas. Estirpes de E. coli do mesmo sorotipo seriam encontradas em bovinos e ovinos de forma assintomática. A fonte de contaminação, provavelmente, estaria relacionada com a fonte de irrigação daqueles vegetais.

Um aspecto importante a considerar é que, com o aumento da produção de vegetais orgânicos, normas e procedimentos de boas práticas agrícolas precisam ser observados de forma que cada manipulador do alimento, desde o campo até a mesa, seja treinado e observe estas normas, para evitar ou minimizar os riscos de contaminação. Por exemplo: que tipo de adubo vem sendo utilizado na produção destes alimentos? Qual a sua origem? Que tipo de tratamento recebe antes de sua utilização? Qual a fonte de água utilizada na irrigação? Qual o tratamento que estes vegetais recebem após a colheita? Onde e como são armazenados?

Falhas nas Boas Práticas agrícolas, aliadas à presença eventual de uma bactéria altamente contaminante no adubo, por exemplo- ou mesmo pela falta de cuidado adequado porparte dos agricultores podem ter conseqüências sérias no aparecimento de novos surtos de doenças de origem alimentar. É preciso, portanto, ampliar e divulgar as pesquisas na área de genética da virulência bacteriana. Paralelamente, é preciso incentivar a ampliação do uso de Boas Práticas Agrícolas nas fazendas produtoras de alimentos vegetais, através de treinamentos dos produtores agrícolas. É também necessário conscientizar o consumidor para que ele não consuma nenhum alimento cru sem a higienização adequada, evitando assim a formação de uma cadeia de transmissão e evitando o aparecimento de novos surtos.

ANVISA: http://www.anvisa.gov.br/alimentos/bpf.htm 
Manual de Boas Práticas para Agricultura Familiar - EMBRAPA: http://www.sa.df.gov.br/sites/100/148/00002062.pdf

bacteriaPor Raquel Regina Bonelli

Em janeiro de 2012, um artigo na BMC Microbiology assinado pelos renomados pesquisadores Liise-Anne Pirofski e Arturo Casadevall, trouxe de forma objetiva, concisa e clara uma reflexão sobre patogenicidade, avaliada sob o ponto de vista da microbiologia contemporânea. Os autores destacam que, apesar de originalmente a patogenicidade ter sido atribuída a fatores como a produção de cápsula ou de toxinas, hoje se sabe que para muitos patógenos não é possível identificar um fator chave determinante para a doença. De fato, as propriedades de patogenicidade estão também intrinsecamente ligadas ao hospedeiro.

Considerando que o sistema imune é capaz de conter e controlar muitas infecções, é óbvio que um hospedeiro debilitado tende a ser mais susceptível a doenças bacterianas. No entanto, é importante lembrar que uma vez que somos colonizados por inúmeras espécies de bactérias, a diferença entre ficar ou não doente pode estar nas condições em que se estabelece o contato entre o (potencial) patógeno e o hospedeiro. Neste contexto, o uso de antimicrobianos (que podem selecionar a microbiota) ou a exposição de áreas antes estéreis (como no caso de cirurgias ou do emprego de catéteres) são exemplos de fatores que criam condições para também um micro-organismo considerado não-patogênico levar a um quadro de doença no hospedeiro. Muitas vezes, não é nem mesmo algum fator produzido pelo micro-organismo diretamente e sim a resposta imune por ele induzida que leva ao dano.

Não por acaso, cada vez mais a palavra virulência faz parte do universo da microbiologia médica. Ao contrário do que pode parecer, esse termo não é intercambiável com patogenicidade. A patogenicidade é um conceito absoluto que determina se uma bactéria é ou não capaz de causar doença em um hospedeiro, enquanto a virulência é uma unidade contínua e se refere à intensidade do dano causado, podendo variar conforme a cepa ou o ambiente em que a interação com o hospedeiro se dá.

Assim, segundo os autores, tentativas de classificar micro-organismos como patógenos, não-patógenos, oportunistas ou comensais tendem a esbarrar sempre na imprevisível dinâmica que se estabelece entre o micro-organismo e o hospedeiro. A compreensão cada vez melhor dos processos de patogenicidade depende, portanto, da contínua aquisição de novos conhecimentos.

Fonte: Pirofski, L.-A. & Casadevall A. What is a pathogen? A question that begs the point. BMC Biology 10:6, 2012

Leia mais em: Casadevall, A; Fang F. C. & Pirofski L.-A. Microbial virulence as an emergent property: consequences and opportunities. PLoS Pathog 7:e1002136, 2011.

artemia salinaPor Alane Beatriz Vermelho 

Recentemente foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), um trabalho de autoria de Margarita Zarubin e colaboradores, no ano de 2012, sobre o efeito da bioluminescência de bactérias marinhas na atração de zooplânctons e peixes (http://www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1116683109).

Segundo os autores, a hipótese da bioluminescência como um fator de propagação e dispersão de bactérias existe há mais de 30 anos. De fato, já havia sido demonstrado que os peixes são atraídos por esta luz e, que efetivamente, consumem estas bactérias luminosas. Esta hipótese existe baseada na presença das bactérias luminescentes no intestino dos peixes.

Neste artigo, entretanto, foi realizado um estudo detalhado que comprova este fenômeno e como ele ocorre. A bactéria luminescente que foi o alvo deste estudo foi a Photobacterium leiognathi. Os zooplânctons que se alimentavam dessas bactérias apresentavam luminosidade noturna, tornando-se, devido a isso, altamente vulneráveis à ação predatória dos peixes. As bactérias, por sua vez, sobrevivem nos zooplânctons e no intestino dos peixes, garantindo de forma eficaz a sua sobrevivência e dispersão. Esse fato foi demonstrado porque Bactérias vivas foram observadas nos “pellets” fecais dos zooplanctôns e dos peixes.

Os experimentos que provaram este ciclo natural foram bastante simples. Em um deles, um saco de diálise contendo as bactérias luminescentes foi colocado no canto de um tanque com água do mar. No canto oposto, foi adicionado outro saco de diálise contendo um mutante da Photobacterium leiognathi que perdeu a capacidade de emitir luz. Após adição dos sacos de diálise, em 15 minutos, foi observada uma migração de certos tipos de zooplâncton para a zona brilhante, com luz. Nenhuma alteração na migração dos zooplânctons não móveis, como o dinoflagelado Pyrocystis sp., foi observada. E os mesmos, serviram como um controle do experimento. Em outro experimento, foi demonstrado que a Artemia salina, um micro crustáceo da comunidade do zooplâncton, tornou-se luminescente após ser exposta por apenas 10 segundos a uma cultura líquida de Photobacterium leiognathi ou após ficar na presença de uma suspensão de colônias da bactéria por 2,5 horas.

Fechando o ciclo, o peixe de hábitos noturnos Apogon annularis, utilizado neste estudo, consumiu praticamente toda a Artêmia luminescente oferecida a ele.

Com experimentos relativamente simples, os autores provaram que a biolumenescência atua como uma “isca”, formando uma cadeia alimentar específica e garantindo a dispersão de certas espécies de bactérias.

Leitura recomendada: Zarubin M, Belkin S, Ionescu M, Genin A. 2012. Bacterial bioluminescence as a lure for marine zooplankton and fish. Proc Natl Acad Sci. 109(3):853-857.

photobacteriumcultures2

Três espécies de bactérias bioluminescentes . Da esquerda para a direita: Photobacterium kishitanii, P. leiognathi, andP. Mandapamensis
http://microbewiki.kenyon.edu/index.php/The_Symbiosis_of_Marine_Bioluminescent_Photobacterium

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