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Por  Felipe  Soares

Matéria escrita para a disciplina “Tópicos de Divulgação Cientifica” do programa de pós-graduação em Ciências (microbiologia) do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes

Países em desenvolvimento, como o Brasil, muitas vezes são palco de doenças relacionadas à carência de infraestrutura e de um sistema de saúde eficaz. Essas enfermidades são conhecidas como doenças negligenciadas. Tais doenças apresentam em comum o fato de serem causadas por parasitos, que são organismos que sobrevivem em hospedeiros, retirando deles meios para sua sobrevivência. Apesar de responsáveis por 12% da quantidade global de doenças, a atenção voltada a essas doenças por parte da indústria farmacêutica com a produção de fármacos voltados ao tratamento destas totalizam 0,01%. No Brasil, a situação é delicada, pois concentra a maioria dos casos de algumas dessas doenças negligenciadas.

A doença de Chagas, considerada uma doença negligenciada, é causada pelo protozoário parasita Trypanosoma cruzi. É comum alguns pacientes chagásicos desenvolverem problemas cardíacos e no esôfago. A principal forma de transmissão é feita por insetos triatomíneos, conhecidos como barbeiros, que se alimentam de sangue humano ou de outros animais. Durante sua alimentação, este inseto libera dejetos fecais contendo vários parasitos, que podem atravessar a pele através da lesão da picada ou de outras lesões. A principal forma de contenção da doença é feita a partir do controle do inseto transmissor. No ano de 2006, o Brasil ganhou a certificação internacional de erradicação da transmissão da doença de Chagas pelo barbeiro da espécie Triatoma infestans, considerado o principal transmissor no país. Apesar do êxito, outras espécies de barbeiros continuam transmitindo a doença. Além disso, outras maneiras de contágio que não envolve diretamente o vetor são responsáveis pelo surgimento de novos casos nos últimos dez anos, como por exemplo, o contágio por transfusão sanguínea, transplante de órgãos, via neonatal ou oral.

A transmissão oral, ao longo dos últimos quinze anos, foi responsável pelo aparecimento de diversos surtos da doença de Chagas no Brasil. Ela é resultado da ingestão de alimentos contaminados com material fecal dos barbeiros contendo os parasitos, ou menos ocasionalmente, pelo contato oral com secreções da glândula de cheiro de gambás (Figura 1), que concentram um número considerável de parasitos infecciosos. Outras possíveis situações são a contaminação dos utensílios usados na preparação de alimentos, que se armazenados de forma incorreta, podem ficar expostos aos próprios barbeiros ou a baratas e moscas que entraram em contato previamente com fezes de barbeiros contaminados. O consumo de sangue de mamíferos por algumas tribos indígenas da Amazônia também pode ser um alvo de contaminação.

ciclo doenca chagas

Figura 1: Representação esquemática da transmissão oral que envolve a ingestão de alimentos contendo fezes de barbeiros infectados.

Fonte: Guia para vigilância, prevenção, controle e manejo clínico da doença de chagas aguda transmitida por alimentos. PAHO, 2009.

No ano de 2006, a forma de contaminação por via oral foi classificada como potencial risco para a Saúde Pública no Brasil. Neste mesmo ano, houve a confirmação de 115 casos da doença de Chagas nas regiões Norte e Nordeste, sendo 94 casos por via oral. A maioria dos casos foi por ingestão de açaí contaminado, um alimento essencial na dieta da população da Região Norte (Figura 2). 

acai

Figura 2: Açaí, principal causa das infecções orais no norte do Brasil.

Fonte: http://querosaude.com.br/beneficios-acai-voce-sabe-quais-sao/

Registraram-se, também neste período, surtos pela ingestão de Bacaba e de cana-de-açúcar. No ano seguinte, a situação foi semelhante, como mostra o quadro a seguir. 

doenca de chagas

Apesar da maioria dos casos recentes, notificados no país, serem de responsabilidade do consumo do suco de açaí fresco, outros vegetais, como a cana-de açúcar, podem ser processados juntamente a barbeiros contaminados. Em 2005 foi relatado um surto de doença de Chagas no estado de Santa Catarina, relacionado ao consumo de caldo de cana. Além dos vegetais, carne crua, sangue de mamíferos e leite cru podem apresentar riscos de contaminação. Infelizmente, nos dias de hoje a situação não melhorou. Regularmente acontecem surtos em locais isolados, sempre apontando o açaí como principal veículo de contaminação. Em 2014 houve surtos no norte do Tocantins e no começo de 2015, em algumas cidades do Amazonas.

Algumas recomendações precisam ser seguidas por países que apresentam transmissão oral de doença de Chagas, como por exemplo, que a doença seja incluída no grupo das Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) pelos órgãos nacionais encarregados da inocuidade de alimentos nos países endêmicos, e que os mesmos fomentem suas estratégias de prevenção e controle. À comunidade científica compete fomentar investigação básica sobre tema, para o desenvolvimento de conhecimento sobre transmissão oral de T. cruzi, que propicie a sua melhor interpretação epidemiológica e direcionamento das ações de prevenção e controle.

Bibliografia

Assad, L. (2010). Doenças negligenciadas estão nos países pobres e em desenvolvimento.Ciência e Cultura,62(1), 6-8.

Organização Pan Americana da Saúde. (2009). Guia para vigilância, prevenção, controle e manejo clínico da Doença de Chagas aguda transmitida por alimentos.

Cavalcanti, L. P. D. G., Rolim, D. B., Neto, R. D. J. P., Vilar, D. C. L. F., Nogueira, J. O. L., Pompeu, M. M. D. L., & Sousa, A. Q. D. (2009). Microepidemia de doença de Chagas aguda por transmissão oral no Ceará.Cad. saúde colet.,(Rio J.),17(4).

Agência nacional de vigilância sanitária. Informe Técnico - nº 35 de 19 de junho de 2008.

RECOMENDAÇÕES, C. E. (2006). Consulta técnica em epidemiologia, prevenção e manejo da transmissão da doença de Chagas como doença transmitida por alimentos.

Fregonesi, B. M., Yokosawa, C. E., Okada, I. A., Massafera, G., Costa, T. M. B., & Prado, S. D. P. T. (2010). Polpa de açaí congelada: características nutricionais, físico-químicas, microscópicas e avaliação da rotulagem.Revista do Instituto Adolfo Lutz (Impresso),69(3), 387-395.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/noticias/gd240305c.htm

http://conexaoto.com.br/2014/12/18/ingestao-de-alimento-contaminado-pode-ser-causa-de-surto-de-doenca-de-chagas

Matéria escrita para a disciplina “Tópicos de Divulgação Cientifica” do programa de pós-graduação em Ciências (microbiologia) do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes

Por Maxwel Monção

As microalgas ou algas unicelulares são microrganismos encontrados em corpos aquáticos em todo o globo terrestre; podem ainda estar presentes em folhas ou caules de vegetais além de poder formar, em simbiose com fungos, os liquens(Figura 1) .São os principais integrantes do fitoplâncton, podendo ser encontrados de forma individualizada ou em colônias capazes de alcançar grandes dimensões. Esse grupo de organismos é considerado fundamental para a manutenção da vida na Terra uma vez que participam, juntos das macrófitas aquáticas, da produção de maior parte do O2 da atmosfera.

microalgas

Figura 1 - Cultivo de microalgas, disponível em http://impressaodigital126.com.br/?p=13528

Segundo Scott Franklin, vice-presidente da divisão de biologia molecular na Solazyme, uma empresa na vanguarda da pesquisa com algas, o longo tempo desses organismos no planeta está diretamente relacionado com sua resistência e capacidade de adaptação, a maioria é capaz de produzir seu próprio alimento utilizando apenas de energia solar.

A simplicidade na estrutura desses organismos permite seu rápido crescimento despertando o interesse por aplicações biotecnológicas. Suas exigências nutricionais não são elevadas e o crescimento é rápido na presença de luz viabilizando sua produção em biorreatores abertos e com água de seu ambiente natural acrescida de antimicrobianos para facilitar o crescimento algal permitindo uma produção economicamente competitiva.

A produção de microalgas fotossintetizantes apresenta como vantagem ecológica à obtenção de créditos de carbono uma vez que nessa rota os organismos fazem fotoconversão de CO2 para a produção de matéria orgânica. Esse saldo de carbono gera grande interesse na pesquisa uma vez que pode ser uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis e fontes não renováveis de energia além do controle do efeito estufa. De acordo com estimativas do Climate Council (Figura 2), 62% dos combustíveis fósseis e 88% do carvão não devem ser extraídos e utilizados na geração de energia para controle das emissões de carbono na atmosfera. Nesse contexto, a produção de biocombustíveis deve ser intensificada de modo a oferecer a quantidade necessária de energia substituindo fontes não renováveis.

Devido ao grande impacto ambiental causado pelos combustíveis fósseis, o interesse em outras fontes de combustíveis tem se intensificado. O biodiesel é produzido a partir de fontes renováveis, pela transesterificação de triglicerídeos com alcoóis de cadeia curta, produzindo ésteres monoalquílicos de ácidos graxos de cadeia longa. As principais vantagens deste combustível devem-se ao fato do mesmo ser biodegradável, não tóxico e renovável. Além disso, o biodiesel pode ser misturado ao diesel fóssil em qualquer proporção.

Estudos recentes indicam que o biodiesel pode ser obtido a partir de microalgas, devido à facilidade de seu cultivo, quantidade intracelular de lipídios, viabilidade de manipulação genética das vias metabólicas, duplicação da biomassa em um curto período de tempo e possibilidade de controlar estas condições. A composição da biomassa microbiana se dá principalmente por três tipos de macromoléculas orgânicas: proteínas, carboidratos e lipídeos sendo os últimos utilizados como matéria prima na produção de biodiesel. A retirada dos lipídeos para a produção de biodiesel e conversão da biomassa remanescente em biocombustíveis garante um rendimento próximo a 100% que torna as microalgas uma das classes de organismos mais eficientes na produção de combustíveis não fósseis.

Referencias :

C. M. P. PereiraI; C. B. HobussI; J.V. MacielI; L. R. FerreiraI; F. B. Del PinoI; M. F. MeskoI; E. Jacob-LopesII; P. C. Neto. Biodiesel renovável derivado de microalgas: avanços e perspectivas tecnológicas Quim. Nova 10:2013-2018, 2012.

Impessão Digital, available at: http://impressaodigital126.com.br/?p=13528 - acesso em 26 de maio de 2015.

Mataa, T. M., Martinsa, A.A. & Caetano, N.S.: Microalgae for biodiesel production and other applications: A review. Ren. Sust. En. Rev. 14:217-232, 2010.

Portal Solazyme, disponível em: http://solazyme.com/blog/2014/08/12/the-magic-of-microalgae/ - acesso em 26 de maio de 2015.

RENUKA N; SOOD A; PRASANNA R. & AHLUWALIA AS. Influence of seasonal variation in water quality on the microalgal diversity of sewage wastewater. S Afr J Bot: 90, 137–145, 2014.

Spolaore, P., Joannis-Cassan, C., Duran, E., Isambert, A. Commercial applications of microalgae. J. Biosci. Bioeng. 101:87-96, 2006.

what is our carbon

Figura 2

Além da produção de energia, outras aplicações também podem ser conferidas a esses organismos; no contexto ambiental, o uso de microalgas na fase final do tratamento de efluentes se apresenta como uma alternativa de baixo custo e alta eficiência uma vez que esses organismos são capazes de diminuir os níveis de N e P do material tratado além de sua capacidade de metabolizar metais pesados e hormônios que são encontrados no esgoto doméstico. Altos níveis de N e P nos efluentes quando lançados num corpo de água podem induzir a eutrofização[MG1] , processo onde existe uma alta densidade de organismos que geralmente diminui consideravelmente a quantidade de O2 dissolvido levando a mortandade de peixes.

A coloração característica dos flamingos e salmões se deve às suas dietas compostas de microalgas. A capacidade nutritiva desses organismos se dá por alta concentração de material orgânico de valor nutricional, por isso, outra aplicação desses organismos é na indústria alimentícia principalmente na produção de alimentos probióticos, pigmentos naturais, suplementos alimentares e produção de ração para animais. São ainda aplicadas na indústria cosmética na produção de cremes anti-idade e protetores solar. Moléculas de alto valor como ácidos graxos, pigmentos e isótopos bioquímicos.

Microalgas possuem diversas aplicações na biotecnologia sendo, por muitas vezes, uma opção competitiva quando produzida a partir da fotoconversão [MG2] de gás carbônico. Estão presentes na Terra por milhões de anos e apresentam grande resistência além de tolerância maior que grande parte dos organismos. Diversas aplicações podem estar atribuídas a esses organismos e existe um grande potencial a ser explorado para que possamos ter um futuro verde e sustentável.

 

cyclovirus paperPor Renata Mendonça  Campos

Professora do Instituto de Microbiologia, Departamento de Virologia

Nature- Scientific Reports/4:7552/Doi 10.1038 /srep07552

Os Cyclovirus (CyCVs) foram, recentemente, propostos como um gênero dentro da família Circoviridae. São vírus não envelopados com genoma DNA fita simples circular. Um número crescente de estirpes de CyCVs foram detectados em mamíferos (homens, chimpanzés, bovinos, caprinos, suínos, ovinos, morcegos e camelos), em aves (galinhas e patos) e em insectos (libélulas e baratas da espécie Eurycotis floridana). Apesar de uma elevada diversidade genética, a transmissão cruzada entre espécies parece provável, pelo menos em mamíferos. No entanto, em contraste com os circovirus, a importância da infecção por CyCV para o desenvolvimento das patologias permanece obscura. CyCVs têm sido relacionados com infecções respiratórias e neurológicas em seres humanos. A presença do vírus foi demonstrada no soro, fezes ou líquido cefalorraquidiano (LCR) de pacientes com paralisia flácida aguda, paraplegia ou suspeita de infecção do sistema nervoso central no Paquistão, Tunísia, Malawi e nas regiões Sul e Central do Vietnã. Gerou um interesse particular a descrição de uma alta taxa de detecção da espécie Vietnã CyCv (Cycv-VN) nas fezes de suínos e de frango da mesma área com evidências de seres humanos infectados. Neste estudo, a presença de Cycv-VN e estirpes “Cycv-VN-like” foram detectadas em amostras de fezes humanas de Madagascar e em fezes de suínos de Camarões, mostrando que a distribuição geográfica estende-se muito além do sul e centro do Vietnã como se pensava originalmente.

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